16.11.06

Os Fraldinhas*

Era uma vez, numa terra muito, muito distante - para lá da última esquina da Terra do Nunca - um grupo de garotinhos. A história deles, obviamente, começa há muito tempo, mas já está há tanto esquecida, que não nos interessa aqui contá-la desde o princípio - apenas precisamos saber que eles escolheram fugir do mundo das gentes grandes, dos adultos, que eram muito chatos e formalistas, para viverem felizes em algum outro lugar onde tudo o que eram forçados a acreditar no mundo "real" fosse inválido: esse novo lugar, Inverídia, era feito pelas suas próprias idéias, um reflexo etéreo, semi-sólido, onde tudo podia mudar e se tornar em outra coisa, fortuitamente ou por conveniência.

Na formação de Inverídia, Os Fraldinhas estabeleceram uma "Regra de Ouro": a única certeza é a incerteza - à qual recorreriam sempre que alguém tentasse estabelecer alguma verdade. Como fundadores de Inverídia, estabeleceram que eles mesmos seriam os juízes que examinariam cada premissa e afirmação e estabeleceriam se era o caso, ou não, de aplicar a Regra de Ouro. Assim estabelecidos, começaram sua Reforma do Mundo e da Natureza.

[breve nota: percebam que Os Fraldinhas não são assim tão inovadores, outros personagens compraram lotes próximos a Inverídia e fizeram seus exercícios de recriação: Emília Rabicó, Marx, Rousseau... mas os empreendimentos não deram muito certo. Algumas ruínas continuam por lá - mas como os castelos de areia estão construídos na cabeça do sujeito...]

O primeiro julgamento em Inverídia foi da Tradição Cristã. É, Os Fraldinhas tiveram algum brio e não chamaram o próprio D'us, uma vez que este não responde sobre aquela - mas chamaram como testemunha de acusação um tal Semvergonhice, que compareceu devidamente travestido de Graça. Invocaram pelo Oráculo Google uns resumos mal feitos de Hegel, Paltão, alguns pré e pós-socráticos e do próprio Kant, que estavam bastante rotos e mal armados em seus trajes improvisados - mas como tudo em Inverídia é meio virtual e desfocado, ninguém notou muito a diferença.

O julgamento ficou truncado por alguns erros processuais e de forma, como a confusão primária entre a noção de certeza bíblica (que compõe a Tradição Cristã) e a certeza epistemológica moderno-cartesiana. Mas foi fácil aplicar uma leitura histórica continuísta e atribuir uma à outra, e tudo ficou resolvido. Alguns pós-socráticos, como os Estóicos, ficaram desconfortáveis em ter seus nomes citados no processo como mantenedores da noção de incerteza e falta de critério, uma vez que, apesar de pessimistas quanto ao sendito da existência (não há nenhum), o Ser é um fato, e portanto sua realidade é inegável, o que torna uma ação e noção moral na condução da vida necessárias. Mas como estavam descompostos (lembrem-se: eram resumos), ficaram calados.

O Sr. Kant se recusou a falar no julgamento alegando saber muito bem que seu sistema filosófico pressupõe que a instância mais humana é a razão natural - que não é suficiente para compreender questões para além do que pode ser analisado racionalmente, recusando apresentar-se ante a qualquer questão metafísica ou teológica. Mas se houver alguma outra instância mais humana, como o Coração (tal como diz Dooyeweerd), seu sistema é pego no contrapé... Como é um homem modesto, Kant soube reconhecer o valor do argumento e retirou-se do debate. Mas ao fazer isso, foi acusado de fundamentalismo pelOs Fraldinhas: ele que havia estebelecido a incerteza, deveria manter-se fiel a ela; tentar pensar em alguma instância que trouxesse acesso e processo de certificação às questões metafísicas e teológicas era incorrer no erro da certeza. Declarado inepto, suas declarações foram retiradas dos autos, e foi convidado a se retirar do Tribunal.

Quando Hegel foi chamado para prestar testemunho, foi ouvido com euforia enquanto descrevia o processo de auto-conhecimento da Razão e revelação rumo ao Absoluto. A síntese como junção que supera tudo o que é tido por certo anteriormente causou urros de prazer nOs Fraldinhas (que eventualmente tiveram que se limpar - essa coisa do estágio freudiano do prazer pelo controle do esfíncter anal pode causar problemas, e como só passa lá pelos 2 ou 3 anos...). Mas quando Hegel se enveredou por coisas como finalidade histórica, teleologia, até sobre o caráter absoluto de uma afirmação final, teve seu depoimento encerrado.

Depois de um breve recesso para a mamadeira, foi chamada a principal testemunha: Paulo. Entrou amordaçado, algemado e preso em camisas de força. Foi-lhe dito que se dissesse alguma coisa fora do combinado, os eletrodos presos aos seus testículos e troncos neurais seriam ativados em capacidade máxima. Assim mesmo ele conseguiu ler no teleprompt os trechos escolhidos de Romanos e Gálatas (devidamente editados), falando sobre a Dona Graça e a Demônio-Lei. Houve um certo constrangimento, mas... bom, aquilo era Inverídia, que fazer? O problema da crítica textual e exegese a que os textos são passíveis não eram problema: quem sabe grego em Inverídia?

A apoteose aconteceu quando a Graça foi chamada para testemunhar. Era estranho porque estava desacompanhada de Obediência (companheira inseparável), e Lei estava vestida em trajes descompostos, horrendos e se encontrava terrivelmente cabisbaixa (seguiu para uma gaiola onde era atiçada com teasers por dois terríveis Fraudinhas - crianças podem ser terríveis torturadores, os sapinhos que o digam).

[breve nota: corre um boato que Obediência foi abatida e devorada numa churrascaria chamada "Obras da Carne", de propriedade de um tal C. F., perto da Estação da Garça. Não se sabe nem se comprovou o envolvimento dOs Fraldinhas - mas com tanta incerteza, todos são suspeitos]

A Graça revelou que o D'us do Antigo Testamento era uma farsa judaica, no máximo um artifício temporário transformado em maldade pelos terríveis religiosos e fariseus de toda espécie. Negou que sua finalidade era que aqueles a quem fosse dada pudessem cumprir as obras de justiça a que foram destinados desde a eternidade. Na verdade, toda a verdade era que o universo e D'us eram imorais ou amorais. Como o D'us que intervém na História dando orientações cívicas, morais, ordenando o mandado cultural, que publicou a Lei antes da Criação (ora, o que é a Lei senão a Palavra?), era um artifício narrativo, tudo o que resta é incerteza e dúvida. Tudo o que todos têm a fazer é por em suspenção todo e qualquer juízo, e render-se aos seus cuidadados (da Graça).

Houve choro e muita comoção. Depois gritos de alegria e triunfo. Inverídia tornara-se real sob o resultado de um juízo - nem mesmo a contradição com a Regra de Ouro foi um problema, afinal, aquilo era Inverídia, e seus súditos, nécios envoltos em seus trapos tomados por mantos de sabedoria real. A entrada em seus termos é fácil, larga e sofisticada; a saída, incerta. Inverídia hoje é um labirinto por onde vagam figuras que, com uma das mãos a sustentar o queixo e de testa enrrugada, exibem sua melancolia, desconforto e desespero, cheios de looser-pride. Não conhecem a história do que condenam, e falam como se falassem de coisas grandes e muito sábias. Mas o que importa se não é assim? Estão em Inverídia, e usam fraldas.

*Esse texto é uma ficção, a atribuição de qualquer semelhança ou relação com a polêmica desenvolvida aqui (vide comentários), aqui, aqui e aqui, é de total responsabilidade do leitor (mas o autor espera que este o faça).

13 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Hilário, André! Rolei de rir!

Me lembrei da citação de Lutero: "O melhor método para expulsar um demônio, se ele não ceder aos textos das Escrituras, é ridicularizá-lo, zombar dele, pois ele não suporta o escárnio".

Abs,
Franklin

quinta-feira, novembro 16, 2006 10:06:00 PM  
Blogger Guilherme Carvalho said...

Oi André.

Bem, vc de fato foi muito mordaz; fez eu parecer um doce. Temo que, depois dessa, os Decadentes percam as estribeiras de vez.

Se bem que, do alto de sua arrogância "profética", eles não pareciam dispostos a muita conversa não... O Vinícius mesmo, deu uma de "dialógico", mas logo chutou o balde, antes de saber do que a gente está falando.

O jeito agora é preparar as costas, hehehe!

sexta-feira, novembro 17, 2006 9:58:00 AM  
Blogger Temporal said...

Ai ai (apesar de eu achar graça)

Essa coisa ta ficando feia... Prefiro o caminho do meio porque um tio meu disse que nos dois extremos foram armadas arapucas pelo Inimigo da minha alma.

sexta-feira, novembro 17, 2006 11:16:00 AM  
Blogger André Tavares said...

Mas Temporal, não foi vc quem disse uma vez, com muita propriedade, que "porque ficar a medir as palavras, se há tanto a ser dito?¨.

A coisa feia meu caro, e vc mais que ningúem sabe disso, é parte de ABU dizer o que anda dizendo; e o problema não é dizer (todos o podem), mas não arcar com as conseqüências do que é dito. Peloamordedeus, antinominismo agnóstico é demais, né não?

sexta-feira, novembro 17, 2006 11:24:00 AM  
Blogger Rodolfo Amorim said...

André,
Certamente vc pisou no acelerador contra os Decadentes... mas creio que eles gostaram de ver sua criatividade direcionada a eles... eles são poetas e gostam de linguagem figurada.. o que temo é que em sua viagem imaginária não venham a discernir os sofismas do maligno. Lewis já disse sobre isto em Retorno do Peregrino, uma tentação deveras forte para quem não disciplina a riqueza incerta da imaginação com a verdade certa da revelação.

sexta-feira, novembro 17, 2006 9:14:00 PM  
Blogger Os Decadentes said...

oi André,

O Rodolfo tem razão. Apesar de acusar a gente de viver no mundo da lua, realmente gostei do seu conto. Faça mais dessas à vontade. Até porque conheci vc pessoalmente o suficiente para respeitá-lo.

Bem, se o Franklin acha que a atitude de ridicularizar espanta a gente está enganado. Ou não somos demônios, ou não temos vaidade e orgulho próprio para se importar com o ridículo. Prefiro acreditar na segunda hipótese.

De qualquer forma, é divertido provocar uma roda de conservadores e ser praticamente acusado de herege. Se três fraudinhas, contra um grupo inteiro de gente grande, irritaram tanto as pessoas (e aumentaram o ibope dos dois blogs) imagine o que alguns adultos poderiam fazer.

Bem, mas os fraudinhas vão crescer e, um dia que sabe, virar gente grande e sábia conhecedora da Verdade Revelada encontrada nas Leis de Deus para todos os setores da vida. Isso se não virarem hereges de vez. Talvez a segunda hipótese seja pelo menos mais divertida, uma vez que a salvação é pela Graça e não depende do que façamos mesmo...

Abraço cara, espero que leve aí tudo na esportiva!!

SOLA GRATIA

Vinícius

sexta-feira, novembro 17, 2006 10:43:00 PM  
Blogger Guilherme Carvalho said...

Caro Vinícius,

Acho que vc ainda não está levando a sério o que estamos dizendo.

Não é verdade que "a salvação é pela Graça e não depende do que façamos mesmo." Isso é verdade quanto às condições para a justificação, mas a salvação é mais do que isso. A Bíblia diz: "Desenvolvei a vossa salvação". E a questão sobre se vcs levarão a sério ou não a Lei de Deus não é uma questão de brincadeira.

Vcs estão tratando isso como uma mera diferença de opiniões, sendo que o "outro lado" é um grupo de conservadores fechados e intolerantes, que pensam que acharam a verdade. Mas como tudo não passa de uma diferença de opiniões, "podemos deixar eles nos chamarem de libertinos e simplesmente ignorá-los".

Mas nós não somos conservadores típicos; estamos tão contra a corrente quanto vcs. A "jovialidade" com que vcs tratam dessas questões não faz justiça ao tema com que estão tratando. Sei que é um saco ter que ouvir os "adultos" criticando "nós, os jovens rebeldes" - mas veja, o André nem é adulto, hehehe (o judeu tem que chegar aos 30...)! O Rodolfo está na casa dos 20 ainda, e eu tenho 32.

Se vcs persistirem, por teimosia, em sustentar este conceito de Graça (que está virando moda hoje), vão se comprometer espiritualmente. E vão perder a oportunidade de fazer diferença.

E, por favor, percebam: nós não pertencemos ao grupo típico dos evangélicos que os criticam por serem "libertinos". A gente sabe o que está falando, e porquê.

abraços,

Guilherme

sábado, novembro 18, 2006 10:00:00 PM  
Blogger André Tavares said...

Caro Vinícios,

tudo bem? Que bom que gostou do texto. Sabe, eu acredito no conceito kantiano/hegeliano de "gostar certo". É, eu não sou músico, nunca estudei música, mas aqui em casa temos alguns CDs de música clássica, inclusive de Bach. Eu gosto de Bach. É uma experiência estética, é lindo e toca a alma. Mas eu não gosto "certo" de Bach. Não sei porque exatamente Bach deve ser celebrado - sei muito vagamente o que sua obra significou para o avanço da música erudita no ocidente. Passa-me pela cabeça coisas como uma construção matemática e símétrica da composição, a introdução de tecnologias novas (como o pianoforte), etc. Mas é uma núvem confusa, o que torna meu juízo de gosto sobre Bach equivocado. Da mesma maneira, desconfio dos motivos pelos quais você gostou do texto no blog. Foi custoso fazê-lo - saber o quê dizer, como dizer e a quem dizer é ofício para uma vida -, e não é minha intenção executar Bach para quem não o compreende.
Quanto ao que o Franklin disse, não se preocupe: os demônios não são vocês. São as idéias que povoam suas mentes. Que não são exatamente suas, se considerada a história: gnósticos, marcionitas, luteranos pietistas, pragmatistas, dentre outros, pensaram (inclusive de forma mais sistemática) o que vc's estão dizendo. Sinceramente, quando você (lembre-se, foi você) começou a postar críticas, esperávamos que aparecesse alguma coisa autorizada pela relevância, pertinência e construção do argumento. Mais decepcionante ainda foi a "Carta da Graça" do Xoyo - um embuste, um traque.
Não duvido da capacidade intelectual de vocês. Acredito mesmo que sejam gente muito mais competente que eu (não estou sendo irônico nem sarcástico). Mas o grau de equívoco é tamanho que ficou estranho, difícil de saber se era pra responder ou ignorar. Como as provocações foram feitas em blogs "associados" e a carta aberta tentava ridicularizar a tradição a que nos filiamos (sem o mínimo conhecimento de causa da parte de vocês, diga-se de passagem), não restava outra coisa que não responder.
Não se iluda Vinícius: temos lutado com gentes grandes, e gigantes hereges em dimensões que você pode não poder mensurar. O Guilherme tem travado luta árdua com Tillich e Schelling; o Franklin enfrenta em sala de aula, todos os dias - além de calouros fraudinhas - titãs como Barth, Bultmann, etc... O Rodolfo tem gastado tempo em duelos com cristãos assumidamente fragmentários, que desconhecem a força intergradora do Evangelho, expressão da Soberania do D'us Criador. Eu, em minha pequeneza, tenho me agarrado aos calcanhares de Durkheim e Kant. Todos eles, os oponentes, são adultos. Adultos não irritam, Vinícios, mas nos instigam. Exigem de nós uma resposta melhor. E sabem reconhecê-la, mesmo não concordando. Não concordam assumindo que fazem parte de uma outra tradição: sabem que são Babel.
Eu espero que vocês cresçam, como eu também quero crescer. Mas crescer é saber discernir e ser responsável. Uma hora, alegar juventude e irreverência não vai ser suficiente. Um Dia, Aquele Dia, se não antes, será preciso prestar contas - e não haverá como alegar incerteza ou fazer piadinhas zombeteiras pra rir com os amigos. D'us não se deixa escarnecer - e sua Graça também se expressa em seu Juízo. Saiba que uma palavra pra miserícórida é TZEDAKÁ - Justiça.

Abraço.

domingo, novembro 19, 2006 1:28:00 PM  
Blogger Xoyo said...

Senhor, o meu coração não é orgulhoso
e os meus olhos não são arrogantes.
Não me envolvo com coisas grandiosas
nem maravilhosas demais para mim.
De fato, acalmei e tranquilizei a minha alma.
Sou como uma criança recém amamentada por sua mãe;
a minha alma é como esta criança
Ponha a sua esperança no Senhor, ó Israel
desde agora e para sempre!
Sl 131


Caríssimo Senhor André,

Não digo que fiquei sem palavras, mas confesso como elas não serão suficientes para expressar minha estima pelo que você fez. Você verá como as palavras serão, inclusive, muitas, que procurei escolher com todo o vagar. Primeiramente agradeço por toda a consideração que você expressa, não sei se o que você teve foi uma inspiração, um sonho ou apenas algum trabalho e tempo que perdeu escrevendo isto. Faço coro com as vozes já erguidas e repito que realmente ficou muito bom!
Estive há alguns dias na Terra do Nunca (li a versão integral do Peter Pan & Wendy do capitão James Barrie esses dias depois de muito tempo para encontrá-lo) e nada mais verossímil do que dizer que somos Fraldinhas, uma classe muito assemelhada a dos meninos perdidos. É muito difícil querer ser criança sempre! Há muito o que esquecer do mundo dos adultos e sérios, muita malícia que sempre volta ao coração. Mas foi Cristo quem disse “quem não for como um destes não entrará no reino dos céus”. Ter surgido um conto assim sobre nós me lembra muito de Ricardo Reis em suas Odes, quando diz: “Somos contos contando contos, nada”. Nós contamos contos porquê seguimos a Cristo, o Verbo, a Palavra, ou a Fábula fundamental. E é por sermos reflexo deste conto eterno que somos conto. Mesmo que quem conte o conto sempre aumente um ponto, diminua outro ou mude uma coisinha aqui ou ali. No seu caso existem dois pontos nos quais quero tocar. Contanto, no entanto, que sejamos conto, que é o que é o próprio Deus, teremos ainda o próprio Deus em nós, a Imago Dei. Os dois pontos do conto são, o terdes dito que o que li de Kant foram resumos na internet e o que você fala da Lei. Quanto ao Kant farei um resumo da minha monografia e postarei no meu blog, quando o fizer ponho o link aqui. Quanto ao que disseste da Lei apenas cito Gálatas – por hora – mas estou, na medida do possível, escrevendo e lendo o que posso.
E para muitos que aqui postaram gostaria de deixar claro que estão nos subestimando como se fôssemos, não crianças, mas bestas de carga! Não por qual motivo dizem o que dizem, mas digo que continuarei afirmando tudo o que afirmo, que a Graça é o fundamento, não a Pedra Angular, mas o fundamento da própria Pedra Angular é a clareira onde a Pedra está exposta, e é a Graça quem faz da Pedra uma Rocha de Escândalo. E é a Graça quem faz com que muitos tropeçem na Pedra, pois é a Graça quem mantém a Pedra firme!

Nós, judeus de nascimento e não “gentios pecadores”, sabemos que ninguém é justificado pela prática da Lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo. Assim, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pela prática da Lei, porque pela prática da Lei ninguém será justificado.
Se, porém, procurando ser justificados em Cristo descobrimos que nós mesmos somos pecadores, será Cristo então ministro do pecado? De modo algum! Se reconstruo o que destruí, provo que sou transgressor. Pois por meio da Lei eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim. Não anulo a graça de Deus; pois se a justiça vem pela Lei, Cristo morreu inutilmente!
Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou? Não foi diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como crucificado? Gostaria de saber apenas uma coisa: foi pela prática da Lei que vocês receberam o Espírito, ou pela fé naquilo que ouviram? Será que vocês são tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, querem agora se aperfeiçoar pelo esforço próprio (grego: pela carne)? Será que foi inútil sofrerem tantas coisas? Se é que foi inútil! Aquele que lhes dá seu Espírito e opera milagres entre vocês realiza estas coisas pela prática da Lei ou pela fé com a qual receberam a palavra?
Considerem o exemplo de Abraão: “Ele creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”. Estejam certos, portanto, de que os que são da fé, estes é que são filhos de Abraão. Prevendo a Escritura que Deus justificaria os gentios pela fé, anunciou primeiro as boas novas a Abraão: “Por meio de você todas as nações serão abençoadas”. Assim, os que são da fé são abençoados junto com Abraão, homem de fé.
Já os que se apóiam na prática da Lei estão debaixo de maldição, pois está escrito: “Maldito todo aquele que não persiste em praticar as coisas escritas no livro da Lei”. É evidente que diante de Deus ninguém é pela Lei, pois “o justo viverá pela fé”. A Lei não é baseada na fé; ao contrário, “quem praticar estas coisas, por elas viverá”. Cristo nos redimiu da maldição da Lei quando se tornou maldição em nosso lugar, pois está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro”. Isso para que em Cristo Jesus a benção de Abraão chegasse também aos gentios, para que recebêssemos a promessa do Espírito mediante a fé.
(Gl 2.15-3.14)

Eu disse no meu primeiro post, caso não se lembrem, de que a fé é a única forma de relação com a Graça. Não sei se é possível interpretar este texto de Gálatas de alguma outra forma não exijo de vocês o ônus da prova. Mas acabei ficando o fim de semana inteiro para esclarecer melhor a relação entre Kant e a Graça, que creio não ter ficado nem um pouco clara. Portanto escreverei algo sobre o texto de Gálatas assim que possível, peço apenas paciência.

That's all folks, for now...
Sola Gratia

segunda-feira, novembro 20, 2006 12:04:00 AM  
Blogger Xoyo said...

Caro André,

Agora que postei li seu último post! Alegro-me muito mesmo de você realmente ter se esforçado tanto em sua crítica a nós. Alegro-me mesmo! A primeira vez que li seu post e o li algumas vezes, confesso que me senti um tanto quanto irritado e pensei em sair vomitando palavras ao léu carregadas de ironia e sarcasmo. Mas pela Graça de Deus - e foi a Graça mesmo! - a luz acabou aqui em casa, e não consegui enviar o post! Passei então todo o final de semana afastado do computador por causa de amigos que estavam aqui em casa. Como não peguei no computador acabei escrevendo muita coisa num caderno que provavelmente fim de semana que vem conseguirei digitar. A Graça foi tão grande que não só eu refleti muito sobre a relação de Kant com a Graça como acabou surgindo no texto que eu ia lhe escrevendo a minha monografia inteira, que desde o começo era um arremedo de relacionar Kant com a Graça mas que agora conseguiu se tornar um itinerário muitíssimo claro! Cito, somente a título de curiosidade, um trecho da Crítica da Razão Pura, o segundo Prefácio, para ser mais exato. O contexto é quando Kant fala sobre a "utilidade positica da crítica", ou seja, qual é realmente o "ganho" da crítica! Antes de chegar no trecho em questão ele discute a idéia de liberdade, mostrando que apesar de não ser possível conhecer a liberdade como fenômeno é justamente isto que garante que é dela que estamos falando.

"Precisamente essa discussão sobre a utilidade positiva dos princípios críticos da razão pura pode ser patenteada nos conceitos de Deus e da natureza simples de nossa alma, o que passo por alto para ser breve. Não posso portanto sequer admitir Deus, liberdade e imortalidade com vistas ao uso prático necessário da minha razão sem ao mesmo tempo tirar da razão especulativa sua pretensão a visões exageradas, pois para chegar a estas ela precisa empregar princípios que, estendento-se de fato apenas a objetos da experiência possível não obstante serem aplicados ao que não pode ser objeto da experiência, na realidade sempre transformam o último em fenômeno e assim declaram impossível toda a ampliação prática da razão pura. Portanto tive de elevar o saber para obter lugar para a , e o dogmatismo da Metafísica, isto é, o preconceito de progredir nela sem crítica da razão pura, é a verdadeira fonte de toda a muito dogmática incredulidade antagonizando a moralidade (...) [A Crítica serve] para pôr fim, para todo o tempo futuro, a todas as objeções contra a moralidade e a Religião de maneira socrática, isto é, através da prova mais clara da ignorância dos adversários."

Ênfase especial para a frase "tive de elevar o saber para obter lugar para a fé". Enfim, estou estudando isto muito, vale ressaltar que nós fraldinhas gostamos muito mesmo de Schelling, Kant, Bultmann, Barth e coisas semelhantes à estas... Kierkegaard e Heidegger também e todos os grandes homens que tiveram a arrogância e ousadia de tentar descrever a realidade com fidelidade, e nisto acabaram por descobrir irremediavelmente sua própria pequenez, que aparece na história da filosofia sob o nome de finitude.

Só posso dizer uma coisa além disso, fazendo minhas as palavras de Paulo "[Disse-lhe o Senhor] 'Minha Graça te basta! Pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza' Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim".

Abraços novamente
e Sola Gratia

segunda-feira, novembro 20, 2006 12:47:00 AM  
Blogger André Tavares said...

Caro Xoyo,

obrigado pela visita o meu blog, e obrigado por comentar o post. Peço desculpas pela ira ou qualquer mal estar que tenha eu por ventura causado. Conversar dói, às vezes. Se eu tivesse lido somente o seu primeiro post, se não tivesse lido a carta publicada no Blog dOs Decadentes, diria que concordo com vc na exposição sobre a Graça. Se eu não tivesse lido o que li sobre Gálatas, também concordaria com você. Mas há uma tradição judaica que diz para não dizer amén à oração de um samaritano a menos que a tenha ouvido toda. É aplicável.
Escrevo agora de boa paz. Mesmo, e peço que creia. "Os Fraldinhas" é uma fábula, na verdade um mostro de fábula: mal feita, inacabada, literariamente pobre e um pouco raivosa. Os Fraldinhas não são, Xoyo, exatamente vocês. Não, não estou me esquivando. Muito deles tem relação com vocês. Mas tudo transformado em protuberâncias, ângulos grotescos, enfim, uma caricatura. Realmente não acho que vocês leram filosofia, teologia ou o que seja em resumos na internet. Posso ser um péssimo fabulista, mas não sou assim tão ingênuo: vc mesmo, quando falou comigo por telefone durante o encontro da Rede em julho, prontamente disse que fazia filosofia na UFPR, se não estiver enganado. Freqüênto os corredores da FAFICH/UFMG e sei em que pesa um departamento de Filosofia de uma Federal, e não é de pouva monta.
Não duvido da capacidade sua, do Tiago, do Vinícius ou do MRo Guilherme. Já disse ao Vinícius que muito provavelmente vc's são mais competentes e bem formados que eu. Sei do meu tamanho. E, entenda, quem sabe seja isso que me espanta: como disseram o que disseram, da maneira como disseram, sabendo o que sabem? Não estou usando de tom conciliador pra arrefecer os ânimos. É uma pergunta honesta. Mas voltando à questão - realmente não acho que vc's se informaram/formaram via Google ou Wikipédia. É um artifício - um tropo -, não é menos do que o que vocês fizeram.
Mas vocês têm um comportamento que habilita a crítica de quem conversa/debate com vocês. Conhece aqueles desenvolvimentos em TI, programas escritos pra reproduzir o comportamento humano numa conversa? (esse é um exemplo: http://www.inbot.com.br/ed/popup.htm) Há um prêmio gorducho pra quem conseguir escrever um programa que consiga se passar por humano por mais de 15 minutos, acho. Posso estar enganado quanto aos detalhes, mas é alguma coisa assim. Ninguém conseguiu reproduzir comportamento humano numa conversa, sobretudo porque a estratégia usada pelos programadores é fazer com que o programa use evasivas pra escapar das perguntas e termos que não compreendem. Desculpe se parecer mordaz, mas é o que vc's fazem todo tempo esse tempo.
Todo o tempo que vc gastou no primeiro comentário, falando sobre Lei e Graça, nunca foi o ponto da discussão. Ninguém, nem eu, nem Guilherme, nem Rodolfo, nem Marcel, desqualificamos ou desnaturalizamos a Graça como veículo e fundamento sotereológico - nem mesmo a Torah o faz, é só ler Deuteronômio com atenção. O nosso problema é a manobra mental que vc fez na "Carta" descolando o Cristianismo da realidade histórica, para ser groceiro. A questão não é Kant e a Graça, mas Kant e a crítica cristã da razão, em outras palavras, Kant (e os modernos) e os Neo Reformados. Cuidado, Ed, o Robô, não dura 2 minutos.
Outra coisa que me espantou profundamente: é exatamente o problema da finitude que habilita uma crítica cristã sobre a Razão ou sobre a história da Filosofia. Enquanto Babel reconheceu a finitude, deu como resposta a ausência de sentido, a fragmentação do mundo, a impossibilidade de qualquer ordenação válida como ordem última (Peloamordedeus, Xoyo, vc sabe isso melhor que eu); entretanto, lá no período intertestamentário os fariseus compreenderam que o princípio ordenador do mundo é a Torah, que indentificaram com a nocão de Logos dos gregos. Mas a semelhança termina por aí - porque a ordem, nos gregos, pode ser descoberta na necessidade, e por meio dela, o próprio Ser. No pensamento judaico, em Agostinho e posteriormente na Reforma, compreendeu-se que não há necessidade, mas Pacto. É um D'us pessoal que criou e ordenou o Mundo, não havendo necessidade na criação de onde se possa derivar uma teologia ou ontologia. Porque o Pacto não expressa nem é fruto de necessidade, mas vontade absoluta, o Universo é relacional, pessoal. Daí que o conhecimento, uma verdadeira epistemologia só pode ser fundada ou achada na revelação pessoal do D'us pessoal - a Bíblia e o conhecimento que dela deriva.
Do mesmo lugar de onde flui a Graça, flui a Lei. Do mesmo lugar de onde é dispensado perdão, é dispensada ordem e justiça. Não é um dualismo, Xoyo.
O fato do pensamento ocidental ter chegado à conclusão de sua própria incapacidade, não quer dizer que não há resposta ou conhecimento possível. Schelling, Kant, Bultmann, Barth, Kierkegaard e Heidegger, aos quais vc menciou são "quase" arrogantes ou ousados. Acertam em muita coisa, mas não fazem a conversão, estão todos, ainda presos na caverna - de lá, e vc sabe disso, a Filosofia e a razão humana nunca saiu: porque a verdade é revelada, e vem antes da crítica. Mas não deixa de fazê-la, nem deixa de ser luz sobre a realidade.
Não tome essas coisas como uma formulação bem acabada, são só pistas que tenho seguido. Outra coisa: não os tomo por "bestas de carga" - apesar de ter notícias de jumentinhos muito inteligentes, cordiais e honrados. Você deve ter lido Hanna Arendt, e sabe que o diálogo só é possível por alguma condição de igualdade. Tomo a liberdade de me igualar a vc's - a começar por rir (um pouco) de vc's. Peço apenas que vc se lembre onde e como a coisa toda começou - discussão é assim, "toma lá, dá cá". Na verdade eu esperava uma resposta mais virulenta e ferina - na verdade ainda espero. Desconfio que aparecerá uma paródia ainda mais aguda sobre nós (ou de mim) do que a que fiz de vc's. Mas sei como as paródias funcionam - elas divertem, mas também ofendem.
No Messias,


André.

segunda-feira, novembro 20, 2006 10:59:00 AM  
Blogger Temporal said...

E Andre... Acho que me lembro de haver dito isso. Usaste minhas palavras contra mim. De fato penso assim. So nao vejo os gigantes, apenas moinhos de vento. hehehe

terça-feira, novembro 21, 2006 10:29:00 AM  
Blogger Nagel said...

(Ainda me inteirando da querela antinomista)

Legal mesmo, André. Ganhaste um entusiasmado leitor.

Abraços.

quarta-feira, novembro 22, 2006 12:55:00 AM  

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